Receber uma proposta para trabalhar como pessoa jurídica (PJ) pode parecer vantajoso quando o valor oferecido é maior do que o salário de um emprego com carteira assinada. Antes de tomar a decisão, porém, o profissional precisa considerar uma série de custos, direitos e benefícios que mudam de acordo com o modelo de contratação. Para Ana Ferrari, CEO e educadora financeira, a comparação precisa ser feita de forma cuidadosa, levando em consideração não apenas o valor oferecido pela empresa, mas quanto efetivamente ficará disponível para o trabalhador depois de todos os descontos e despesas.“Quando se trata desse CLT, a pessoa já tem alguns benefícios e também alguns direitos”, explica Ana. Entre eles estão o 13º salário, férias, FGTS e, dependendo da situação do desligamento, aviso prévio. Além disso, algumas empresas oferecem plano de saúde, vale-alimentação, transporte, bônus e participação nos lucros. No modelo PJ, a lógica é diferente: “ela vai precisar mudar a mentalidade de CLT e assumir a mentalidade e o cargo de empreendedora”, afirma a especialista.
Quais custos entram na conta?Ao se tornar PJ, o profissional passa a ter responsabilidades que antes poderiam estar concentradas no empregador. Segundo Ana, é necessário considerar impostos relacionados à atividade, contribuição previdenciária, honorários de contabilidade, além de possíveis custos jurídicos para a elaboração ou análise de contratos. “Ela vai começar a observar que vai precisar pagar os impostos das atividades que vai exercer, independente se é um MEI, independente se é um ME, ou então vai crescendo de acordo com o tamanho da empresa, de acordo com a quantidade de sócios e com o faturamento”, explica.Também entram na conta os chamados custos operacionais. Dependendo da profissão, o trabalhador pode precisar pagar equipamentos, materiais, internet, energia elétrica, transporte e até um espaço próprio para trabalhar. Plano de saúde também deve ser considerado quando o benefício era oferecido pela empresa no modelo CLT. “Ela precisa planejar até as férias dela, 13º, pró-labore, manter a parte de organização financeira pessoal dela”, orienta Ana.A especialista também chama atenção para a necessidade de separar as finanças pessoais das empresariais. “Eu preciso ter a conta bancária da pessoa jurídica, então desassociar totalmente a pessoa física da jurídica: um cartão para a pessoa física, um cartão para a pessoa jurídica, uma conta em separado, que não pode misturar”, explica. Para ela, esse controle ajuda o profissional a saber quanto a empresa realmente fatura, quais são seus custos e quanto pode ser destinado à sua remuneração.Como calcular quanto o PJ precisa receber?Não existe uma fórmula única para determinar quanto um profissional deve cobrar como PJ, mas é possível fazer uma comparação prática. O primeiro passo, segundo Ana, é descobrir quanto o trabalhador efetivamente recebe no modelo CLT. Para isso, é preciso partir do salário bruto e descontar impostos e encargos até chegar ao valor líquido.“Você vai pegar aí a pessoa física e ver quanto você recebe todos os meses. Mas esse recebimento, você vai pegar exatamente o que você recebe de bruto e vai deduzir todos os seus impostos, encargos, até chegar no seu líquido. E aí, quando você tem o seu líquido, você vai conseguir comparar com o que você tem de proposta de pessoa jurídica”, explica.A partir daí, o mesmo cálculo deve ser feito para a proposta PJ. É preciso descontar impostos, contador, contribuição previdenciária, custos operacionais e fazer uma provisão para períodos em que o profissional não estará trabalhando. “Você precisa ter uma régua. Eu tenho uma pessoa jurídica e preciso tirar todos os custos dela, fazer a provisão, olhar benefícios e ver quanto eu vou faturar por ano”, afirma.Ana alerta ainda para uma confusão comum durante as negociações: considerar o faturamento como se fosse o salário disponível. “Faturamento não é lucro líquido”, ressalta. Uma proposta de R$ 15 mil, por exemplo, não significa que o profissional terá R$ 15 mil para gastar. Depois do pagamento de impostos, materiais, transporte, contador, equipamentos e demais despesas, o valor que efetivamente sobra pode ser muito menor.Por isso, a orientação é fazer uma projeção anual antes de aceitar a proposta. “Tudo precisa ser calculado para fazer sentido e aí jogar uma previsão para o ano”, afirma. A análise também deve considerar que, no modelo PJ, férias e outros períodos sem trabalho precisam ser planejados financeiramente pelo próprio profissional.Reserva financeira é essencialOutro ponto destacado pela especialista é a necessidade de criar uma reserva financeira antes de fazer a mudança. Diferentemente de um salário mensal fixo, o faturamento como PJ pode variar de acordo com contratos, clientes e demanda. Mesmo quando existe um contrato de prestação de serviços, isso não significa necessariamente que o profissional terá a mesma renda durante todo o ano.Ana destaca que essa previsibilidade é uma das diferenças importantes entre os dois modelos. “Quando você se torna empreendedor, você não tem previsibilidade de faturamento. Se for nessas condições e você fizer um contrato com aquele empreendedor, mesmo assim não é garantia de que você vai faturar determinado valor”, explica.Por isso, aceitar uma proposta apenas porque o número apresentado é maior que o salário atual pode levar a uma decisão equivocada. Para a especialista, o profissional deve comparar o valor líquido recebido na CLT com o lucro líquido estimado como PJ, considerando todos os custos e também a necessidade de formar uma reserva.Quer saber mais notícias sobre profissão e carreira? Acesse nosso canal no WhatsApp Quais são os principais erros?Um dos erros mais comuns, segundo Ana, é aceitar a proposta olhando apenas para o faturamento prometido. “A pessoa é CLT, ganha R$ 10 mil e, ali na hora, o empreendedor faz um cálculo e fala: ‘você vai conseguir ter um faturamento de R$ 15 mil’. Mas faturamento não é lucro líquido”, afirma.Outro erro é deixar de contabilizar despesas que passam a ser responsabilidade do profissional. Dependendo da atividade, podem existir custos com materiais, equipamentos, transporte, internet, espaço de trabalho, plano de saúde, impostos e contabilidade. Sem colocar essas despesas na ponta do lápis, o profissional pode descobrir apenas depois da mudança que o valor líquido recebido é menor do que imaginava.A separação entre as contas pessoais e empresariais também é fundamental. O profissional precisa saber quanto a empresa fatura, quais são os custos para manter a atividade e quanto pode retirar para suas despesas pessoais. “Sempre compare o líquido do que você tem de pessoa jurídica com o líquido da pessoa física”, orienta Ana.A especialista reforça que a decisão de trabalhar como PJ precisa ser acompanhada de planejamento. O profissional deve calcular os custos mensais, fazer uma projeção para o ano, reservar dinheiro para períodos sem faturamento e entender as obrigações relacionadas à empresa. Dessa forma, a comparação deixa de ser apenas entre dois valores apresentados em uma proposta e passa a considerar o impacto real da mudança na vida financeira do trabalhador.
Fonte original: https://dol.com.br/noticias/para/963761/virar-pj-vale-a-pena-o-que-o-profissional-precisa-colocar-na-conta-antes-de-aceitar




