A redação do Enem 2026 exige que o candidato saiba usar o repertório sociocultural de maneira relacionada ao tema e à argumentação. A Cartilha do Participante do Inep chama atenção para o chamado "repertório de bolso", formado por citações genéricas e memorizadas que podem ser encaixadas em diferentes propostas. Para a professora de redação Hellen Ferreira, o problema não está em citar autores conhecidos, mas em utilizar uma referência sem demonstrar sua relação efetiva com o tema."O repertório de bolso, de acordo com a Cartilha do Participante, é um conceito que se refere àqueles repertórios que são genéricos e, como a própria cartilha diz, é um repertório que é memorizado e que pode ser encaixado em qualquer tema", explica a professora, ressaltando que a estratégia pode fazer com que o texto fique excessivamente mecânico e distante de uma argumentação construída pelo próprio estudante.CONTEÚDO RELACIONADOEnem 2026: preciso estudar quantas horas por dia para mandar bem na provaEnem: simulado online e gratuito ajuda estudantes a testar conhecimentosEnem 2026: 5 estratégias para melhorar a memória e fixar conteúdosO PERIGO DAS CITAÇÕES QUE SERVEM PARA TUDO



A professora cita como exemplos referências frequentemente utilizadas de maneira genérica, como a "banalidade do mal”"!, de Hannah Arendt, a ideia de "Utopia", de Thomas More, além de conceitos de John Locke e Zygmunt Bauman associados à negligência do Estado ou a diferentes problemas sociais. "Todos esses repertórios são genéricos e decorados, ou seja, eles se encaixam em qualquer tema, em qualquer problemática", afirma Hellen.Quer mais noticias de cursos e empregos? Acesse o canal do DOL no WhatsApp. Na prática, explica a professora, uma mesma referência pode aparecer em textos sobre mulheres, idosos, crianças, animais ou educação, sem que o candidato necessariamente demonstre a relação entre o repertório e o recorte apresentado pela prova."Esses repertórios fazem com que o texto do aluno fique muito mecânico, e o Enem entende que esses repertórios vêm de modelos prontos, de redações nota mil, inclusive, que por muitos anos usaram esses tipos de repertório", afirma.O QUE USAR NO LUGAR DA CITAÇÃO DECORADA?Para Hellen, a saída não é abandonar os autores conhecidos nem deixar de estudar Filosofia, Sociologia ou Literatura. O estudante precisa, principalmente, aprender a selecionar referências que tenham relação direta com o tema. "Como fugir disso? O aluno precisa trazer repertórios que sejam relacionados com o tema, que sejam pertinentes ao tema", orienta.A professora recomenda que o candidato pense nos diferentes eixos temáticos que podem aparecer na prova, como saúde, educação, meio ambiente, família e questões financeiras, mas sem transformar essa divisão em uma nova fórmula pronta. "Você precisa trazer repertórios que estejam já relacionados, que tenham pertinência com as palavras-chave do tema", explica.UM REPETÓRIO PODE VIR DE UM FILME OU DE UMA MÚSICAUma das orientações da professora é ampliar a ideia sobre o que pode ser considerado repertório sociocultural. Segundo Hellen Ferreira, o estudante não precisa se limitar às referências tradicionalmente utilizadas nas aulas de redação. Notícias, informações, filmes, séries, novelas, desenhos, músicas e podcasts também podem contribuir para a construção da argumentação, desde que o candidato consiga estabelecer uma relação pertinente com o tema."Espera-se que o aluno consiga relacionar uma notícia, uma informação, um dado, até mesmo alguma série ou algum filme que ele tenha assistido, uma canção, até mesmo. O Enem agora aceita até podcasts", afirma.Para ela, o estudante deve olhar para a própria trajetória escolar e cultural e identificar conhecimentos que realmente possam ajudá-lo a discutir o problema proposto. "Ele precisa ver: eu já assisti a um filme, eu já assisti até mesmo a uma novela, a um desenho, algo que fale sobre essa temática, que tenha a ver com essa problemática", exemplifica."VIDAS SECAS" PODE FUNCIONAR DESDE QUE HAJA RELAÇÃOHellen cita uma experiência com um tema relacionado ao trabalhador rural, que foi proposto pelo Inep no Enem especial de Belém em 2025, para explicar a diferença entre simplesmente mencionar uma obra e utilizá-la de maneira produtiva. "Houve aluno que trouxe repertório falando sobre Vidas Secas, do Graciliano Ramos, que conta a história de uma família lá nordestina", relata.A obra pode ser utilizada como referência, mas o estudante precisa demonstrar por que aquele conhecimento ajuda a explicar o problema apresentado pela proposta. É essa relação que, segundo a professora, transforma uma informação em repertório efetivamente produtivo. "Fica muito mais fácil do aluno conseguir relacionar, então, naquele repertório produtivo, quando o repertório já tem relação com a problemática, com o eixo temático”, alerta.NÃO BASTA CITAR: É PRECISO INTERPRETAR



Para Hellen, um dos erros mais comuns é acreditar que mencionar o nome de um autor ou de uma obra já garante uma boa avaliação do repertório. O candidato precisa explicar a referência e mostrar o que ela acrescenta ao argumento."Os alunos precisam usar aquele repertório de forma produtiva, precisa falar sobre os desdobramentos daquele problema ou as consequências, precisa interpretar aquele repertório, explicar e relacionar, e não apenas citá-lo", orienta.Nesse sentido, uma citação pode até ser correta, mas ainda assim não cumprir uma função relevante dentro do texto. "O repertório não deve servir apenas para decorar, ter um efeito decorativo na redação, e sim que ele realmente contribua de forma efetiva para a construção de uma boa argumentação", completa.REPERTÓRIO INADEQUADO PODE AFETAR OUTRAS COMPETÊNCIASA escolha de uma referência sem relação clara com o tema não é um problema isolado da Competência II. Hellen destaca que a fragilidade do repertório também pode interferir na própria construção argumentativa. "Por que isso é problemático? Porque o Enem vai entender que aquele aluno não necessariamente lembrou de um repertório, que ele não conseguiu fazer aquela relação, aquela intertextualidade com o tema", explica.Segundo a professora, quando o repertório não apresenta pertinência nem é utilizado de maneira produtiva, o desempenho na Competência II pode ser prejudicado. "Se o repertório não tem nenhuma pertinência com o tema, o aluno não usa ele de forma produtiva, esse repertório fica apenas nos 120 pontos, não chega aos 200", afirma.Ela também chama atenção para a Competência III, que avalia a capacidade de selecionar, organizar e relacionar informações e argumentos para defender o ponto de vista. "Isso também acaba prejudicando a Competência III, que é a competência que avalia as habilidades do aluno de relacionar, de interpretar e selecionar boas informações, que vão realmente construir, que vão contribuir, na verdade, para a argumentação dele", explica.TEMA VEM ANTES DA CITAÇÃOA estratégia defendida pela professora pode ser resumida em uma inversão na preparação. Em vez de decorar uma lista de frases e tentar encontrar um lugar para elas na redação, o estudante deve primeiro compreender o tema, identificar o problema e definir o argumento. Só depois deve buscar, entre seus conhecimentos, uma referência que possa sustentar aquela discussão."Você precisa trazer repertórios que estejam já relacionados, que tenham pertinência com as palavras-chave do tema", reforça Hellen, destacando que essa mudança evita que a redação seja construída como uma espécie de quebra-cabeça de citações prontas.O REPERTÓRIO ESTÁ NA FORMAÇÃO DO ESTUDANTEA professora também lembra que a própria trajetória escolar já oferece uma série de possibilidades que podem ser utilizadas pelo candidato. "Como a própria Cartilha do Participante fala, no final do ensino médio, é esperado que o aluno tenha já conhecimento sobre determinados assuntos, que ele construiu um arcabouço de repertório sociocultural ao longo da sua formação", afirma.Por isso, a preparação para o Enem não precisa se resumir à memorização de frases famosas. O estudante pode recuperar conhecimentos adquiridos em diferentes momentos da formação e relacioná-los ao problema apresentado pela prova.A PERGUNTA QUE O CANDIDATO DEVE FAZERPara Hellen Ferreira, o repertório precisa cumprir uma função dentro do parágrafo. A pergunta não deve ser apenas "qual autor posso citar?", mas "como esse conhecimento ajuda a explicar o que estou defendendo?"A partir daí, o candidato pode apresentar a referência, explicar seu significado e estabelecer a conexão com o argumento. O resultado tende a ser uma redação menos artificial e uma argumentação mais autoral.No Enem 2026, portanto, a orientação é clara: não basta ter repertório; é preciso saber o que fazer com ele. Para a professora, a diferença entre uma citação decorativa e um repertório produtivo está justamente na capacidade do estudante de estabelecer uma relação verdadeira entre conhecimento, tema e argumento.

Fonte original: https://dol.com.br/noticias/cursos--empregos/963553/redacao-do-enem-2026-saiba-o-que-fazer-para-fugir-do-repertorio-de-bolso