O Pará é um dos quatro maiores produtores de energia elétrica do Brasil. Se produzimos tanta energia, por que pagamos tão caro por ela? Segundo a EPE, o Estado gerou 64,9 milhões de megawatts-hora em 2025 e respondeu por cerca de 8,7% da capacidade instalada brasileira.Em setembro, a ANEEL aprovou reajuste médio de 6,94% nas tarifas da Equatorial Pará, sendo 6,70% para os residenciais e 8,09% em média para os atendidos em alta tensão. A tarifa residencial está entre as maiores do país.As grandes hidrelétricas não pertencem automaticamente ao Estado do Pará por estarem em seu território: os potenciais de energia hidráulica são bens da União, explorados por meio de concessões ou outras formas previstas em lei. Sua produção entra no Sistema Interligado Nacional (SIN), que conecta usinas e redes de várias regiões do Brasil. A energia é comercializada conforme contratos e regras nacionais, não sendo reservada ao estado onde é gerada.A conta inclui custos de compra da energia, transmissão, distribuição, encargos e tributos. Assim, a proximidade da usina não garante energia mais barata. Isso não impede discutir os benefícios econômicos da geração para a população.Os impactos territoriais e ambientais das hidrelétricas justificam a Compensação Financeira pela Utilização de Recursos Hídricos (CFURH). Segundo dados da ANEEL, em 2025 o Governo do Pará recebeu R$ 98,3 milhões e 15 municípios paraenses, outros R$ 255,5 milhões. Ao todo, R$ 353,7 milhões. Altamira, Vitória do Xingu e Novo Repartimento lideraram os recebimentos municipais.Os municípios são beneficiados principalmente pela área ocupada pelos reservatórios, não necessariamente por abrigarem a casa de força. Mas precisamos ir além da arrecadação: quanto desses valores retorna em saúde, educação, saneamento e infraestrutura?A produção deve atrair investimentos, empregos e indústrias capazes de agregar valor às matérias-primas locais. Também é necessário combater perdas e desperdícios, incentivar a eficiência energética e assegurar qualidade no fornecimento. Pouco adianta produzir tanto se consumidores enfrentam interrupções, oscilações e dificuldades para pagar a conta.Vejo três caminhos para aprofundar o debate. Primeiro, avaliar maior desconto decorrente do sinal locacional nas tarifas de transmissão, considerando os efeitos nacionais. Segundo, discutir no Congresso uma redistribuição da CFURH que amplie o retorno às regiões produtoras, sem prejudicar injustamente municípios impactados, e estudar sua aplicação à modicidade tarifária. Terceiro, debater uma reforma do modelo tarifário nacional, cuja mudança legal dependeria de aprovação do Congresso.Não se trata de defender privilégios tarifários incompatíveis com as regras nacionais, mas de construir alternativas economicamente viáveis que permitam à população usufruir dos benefícios de viver em um Estado com tamanha importância energética.O Pará já contribui muito para iluminar o Brasil. É hora de discutir como essa riqueza pode se transformar em mais empregos, renda, desenvolvimento e qualidade de vida para os próprios paraenses.João de Deus Lobato é engenheiro eletricista, ex-executivo da distribuidora de energia do Pará, articulista do Diário do Pará, DOL e Gazeta do Amapá, consultor em energia e apresentador do podcast ÉLivre com João Lobato.
Fonte original: https://dol.com.br/colunistas/joao-de-deus-lobato/965858/o-para-produz-tanta-energia-por-que-paga-uma-tarifa-tao-alta




