Uma chuva com cerca de 7 mil gotas suspensas vai ocupar a CAIXA Cultural Belém a partir desta terça-feira (06/10), às 19h, na estreia de "Lágrimas de São Pedro", instalação do artista visual baiano Vinícius S.A. Com entrada gratuita, a exposição transforma o espaço em uma paisagem de água congelada no tempo e permanece aberta ao público até 24 de janeiro de 2027.A montagem em Belém está entre as maiores já realizadas nos 20 anos de trajetória da obra e encerra o percurso da instalação pelas unidades da CAIXA Cultural no Brasil. A programação de abertura terá ainda uma visita guiada conduzida pelo próprio artista.CONTEÚDO RELACIONADOCírio Musical 2026: confira a programação completa de shows em BelémConfira os vencedores do concurso de Redação do Círio 2026!Arquibancada do Remo para a Trasladação do Círio está esgotadaCHUVA PARADA NO AR



A instalação provoca uma sensação curiosa: milhares de gotas parecem ter sido capturadas no instante anterior à queda. Para criar esse efeito, Vinícius utiliza bulbos de lâmpadas preenchidos com água e presos por fios de nylon em diferentes alturas. A iluminação cênica atravessa as peças transparentes e ajuda a construir a impressão de uma chuva que deixou de cair.Quer mais notícias locais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.O visitante não observa a obra apenas de fora. Ele precisa caminhar entre as gotas e, dessa maneira, passa a fazer parte da própria instalação. "Lágrimas de São Pedro" nasceu da ideia de interromper poeticamente o movimento da chuva para permitir que ela seja contemplada em seus diferentes significados.Para Vinícius, a instalação fala tanto da abundância quanto da ausência de água. "É como se tivéssemos o poder de pausar a chuva."A proposta, segundo o artista, é apresentar uma chuva feita de gotas grandes, transparentes e leves, mas que também carregam símbolos relacionados à necessidade de preservação da água.BELÉM E A RELAÇÃO COM A CHUVAA escolha da capital paraense para a última etapa da itinerância acrescenta uma nova camada à obra. Acostumados a uma cidade em que a chuva faz parte da rotina, os moradores de Belém têm uma relação particular com os temporais e com a água. Essa característica chamou a atenção de Vinícius desde sua chegada à cidade. Segundo o artista, é a primeira vez que a instalação é apresentada em uma capital com uma relação tão próxima e afetiva com a chuva. A temporada paraense também fecha uma trajetória iniciada em Salvador, em 2008. Ao longo de duas décadas, "Lágrimas de São Pedro" passou por diferentes cidades brasileiras e também foi apresentada internacionalmente, incluindo Las Vegas, nos Estados Unidos, e Frankfurt, na Alemanha.DA MEMÓRIA DO SERTÃO À ARTEA origem da instalação está ligada às lembranças de infância do artista no sertão da Bahia. Em uma região onde a chegada da chuva era esperada com ansiedade e celebrada pela população, a água adquiriu desde cedo um significado afetivo.A obra também reúne o interesse de Vinícius por experimentação, ciência e materiais. Apesar da aparência delicada, cada uma das gotas depende de cálculos envolvendo peso, volume e sustentação.Outra experiência marcou o processo criativo. Durante uma caminhada pela Chapada Diamantina, o artista ficou durante horas dentro de uma nuvem que havia descido sobre uma montanha. A experiência com a neblina, segundo ele, passou a fazer parte das referências utilizadas na construção da instalação.Artista baiano com trabalhos no acervo do Museu de Arte Contemporânea da Bahia e experiências de residência artística na Holanda e na Alemanha, Vinícius costuma transformar materiais cotidianos em obras que dependem da participação física do público.QUANDO A ÁGUA TAMBÉM VIRA ORAÇÃOA relação entre água, fé e esperança aparece de maneira inesperada nas reações provocadas pela instalação. Durante a temporada em Salvador, o artista percebeu visitantes rezando diante das gotas. A cena acabou incorporada à própria reflexão sobre o significado da obra.O nome “Lágrimas de São Pedro” também amplia essa dimensão simbólica. As gotas podem ser interpretadas como lágrimas, chuva, promessa, esperança ou mesmo como representação daquilo que está ausente.A instalação, portanto, não pretende apenas reproduzir visualmente uma tempestade. Ela cria uma situação para que cada visitante atribua seu próprio significado à água suspensa.DA CHUVA À PREOCUPAÇÃO COM A SECACom o passar dos anos, a pesquisa de Vinícius também passou a incorporar uma preocupação maior com a escassez de água.As lembranças do sertão continuam presentes, mas a reflexão ultrapassa os limites de uma região específica. A seca e a crise hídrica atingem diferentes territórios e levantam discussões sobre preservação, uso dos recursos naturais e futuro do planeta.Em Belém, essa discussão ganha uma dimensão amazônica. A obra dialoga com os impactos provocados pelos períodos de seca sobre comunidades ribeirinhas e sobre a fauna e a flora da região.Para o artista, a arte pode funcionar como uma ferramenta de sensibilização e debate público. A ideia é utilizar a poesia e a linguagem visual para aproximar o público de questões ambientais que, muitas vezes, parecem distantes da experiência cotidiana.ARTISTA PARTICIPA DE BATE-PAPOAlém da exposição, o público poderá participar de um encontro com Vinícius S.A. na quarta-feira (7), às 14h.O bate-papo terá como tema “Uma conversa entre centros: Lágrimas de São Pedro em Belém” e será seguido por uma visita guiada pelo artista.A atividade tem inscrições abertas e amplia a oportunidade de conhecer o processo criativo por trás das milhares de gotas que formam a instalação.SERVIÇOLágrimas de São Pedro - instalação de Vinícius S.A.Abertura: 6 de outubro de 2026, às 19hVisitação: de 7 de outubro de 2026 a 24 de janeiro de 2027Dias: terça-feira a domingoHorário: das 10h às 21hLocal: CAIXA Cultural BelémEndereço: Avenida Marechal Hermes, s/n, Armazém 6A, Reduto — Porto Futuro IIEntrada: gratuitaBate-papo com o artista: 7 de outubro, às 14h, seguido de visita guiada

Fonte original: https://dol.com.br/entretenimento/cultura/964637/lagrimas-de-sao-pedro-cria-chuva-com-7-mil-gotas-suspensas-em-belem