A montanha-russa Montezum, do parque Hopi Hari, em Vinhedo, no interior de São Paulo, é alvo de investigação do Ministério Público de São Paulo após a jovem Júlia Bossoni sofrer um grave traumatismo cranioencefálico durante um passeio na atração. O caso ocorreu em abril, quando ela viajou de Londrina (PR) para o parque com o namorado, João Pedro, e acabou internada por 57 dias depois de sofrer uma hemorragia intracraniana e edema cerebral.Segundo reportagem exibida pelo Fantástico, no último domingo (20/09), Júlia precisou passar por uma cirurgia de emergência e, meses depois do acidente, ainda enfrenta dificuldades para recuperar os movimentos. Segundo a família, ela perdeu completamente os movimentos do braço e da perna do lado esquerdo, além de apresentar dificuldades na fala e problemas de memória. O caso levou o Ministério Público a abrir uma investigação no mês passado. Uma perícia policial na atração foi solicitada para esclarecer as circunstâncias do acidente.CONTEÚDO RELACIONADOEstudante de 22 anos é encontrada morta em condomínio do namoradoDois militares morrem dentro de quartel em MacapáUma pessoa surda pode falar? O caso da jovem que falou e ouviu a própria voz pela 1ª vezPASSEIO TERMINOU COM JOVEM DESACORDADAJúlia e João Pedro chegaram ao Hopi Hari em abril e conseguiram ficar entre os primeiros visitantes da fila. O casal decidiu experimentar a Montezum, considerada a maior montanha-russa de madeira da América Latina. Inaugurada em 1999, a atração tem aproximadamente 42 metros de altura e pode atingir 103 km/h ao longo de pouco mais de um quilômetro de percurso.Quer mais notícias nacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.Na primeira vez em que andaram no brinquedo, os dois saíram normalmente e ainda foram contemplados com uma promoção que dava direito a uma passagem VIP para a Montezum. Depois de aproveitar outras atrações do parque, João Pedro lembrou que ainda poderia utilizar o benefício. As câmeras de segurança registraram o casal entrando novamente no carrinho, desta vez ocupando um dos bancos traseiros.Durante a subida inicial, Júlia aparece consciente e aparentemente tranquila. Não há imagens do restante do percurso. Cerca de dois minutos depois, porém, o carrinho retornou à plataforma e a jovem estava desacordada. "Ela já estava inconsciente, já estava convulsionando e nesse momento você fica desesperado, não sabe o que fazer", relatou João Pedro.Funcionários se aproximaram para prestar atendimento. Aproximadamente seis minutos depois, Júlia foi retirada do brinquedo em uma maca. Segundo o relato apresentado na reportagem, a atração voltou a funcionar posteriormente.HEMORRAGIA CEREBRAL EXIGIU CIRURGIA DE EMERGÊNCIAJúlia foi encaminhada para a Santa Casa de Vinhedo, localizada a cerca de 15 quilômetros do Hopi Hari. Devido à gravidade do quadro, ela foi levada diretamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os exames iniciais apontaram hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral. Diante da gravidade, os médicos realizaram uma cirurgia de emergência.O neurocirurgião Victor Batistela explicou que o procedimento foi uma craniectomia descompressiva, técnica que consiste na retirada de uma parte da calota craniana para permitir que o cérebro tenha espaço durante o processo de inchaço.Júlia permaneceu internada durante 57 dias e recebeu o diagnóstico de traumatismo cranioencefálico (TCE). Segundo o laudo médico elaborado pelo especialista, o trauma teria sido provocado por um mecanismo de contragolpe durante o passeio na montanha-russa.“Apenas um movimento brusco de aceleração e desaceleração e rotação do crânio pode fazer a ruptura de vasos sanguíneos cerebrais, causando uma hemorragia intracraniana e levando a um edema cerebral, que foi o caso da Júlia em especial”, explicou o médico.FAMÍLIA AFIRMA QUE JOVEM NÃO TINHA DOENÇAS ANTERIORESDe acordo com os familiares, Júlia não apresentava doenças pré-existentes. O namorado conta que as consequências do acidente permanecem no cotidiano da jovem. Ela não movimenta o braço nem a perna do lado esquerdo e apresenta dificuldades para falar, além de ter memórias consideradas turvas pela família."Ela perdeu o movimento do lado esquerdo completamente. O braço e a perna, ela não movimenta. Ela tem dificuldade de fala, memórias turvas", afirmou João Pedro.A família busca agora esclarecer exatamente o que aconteceu durante o percurso da atração e se houve alguma falha ou circunstância capaz de explicar o trauma.OUTROS VISITANTES TAMBÉM RELATAM LESÕESO caso de Júlia não é o único envolvendo problemas de saúde após uma viagem na Montezum. Em 2018, Nathalia Assenjo Motta também relatou ter sofrido uma grave lesão durante o passeio. Segundo ela, ao fazer uma curva, seu pescoço sofreu um movimento brusco semelhante ao chamado “efeito chicote”."Conforme a montanha-russa desceu e subiu para fazer a curva, o meu pescoço fez o mecanismo de chicote, deu aquele estalo. Meu corpo desligou totalmente", contou.O deslocamento das vértebras exigiu a colocação de 12 pinos e duas hastes na região cervical. Nathalia recuperou os movimentos três dias depois, mas ficou com a mobilidade do pescoço comprometida.Ela recebeu indenização do Hopi Hari por danos materiais e afirma que ainda enfrenta consequências do problema de saúde, incluindo dores intensas e necessidade de tratamentos. "Fisioterapias, hidroterapia que eu tive que pagar particular, que o plano não cobre. Eu tenho essas dores absurdas e preciso tomar remédios fortíssimos", relatou.HOMEM FICOU TETRAPLÉGICO APÓS PASSEIO EM 2014Outro caso citado na investigação envolve Márcio, que andou na Montezum em 2014 e, posteriormente, ficou tetraplégico.Segundo o advogado João Erhardt, houve rompimento de duas vértebras e o quadro neurológico que levou à tetraplegia estaria relacionado a um movimento de chicote, conforme o laudo mencionado por ele.Márcio morreu em 2023 em decorrência de complicações relacionadas a uma infecção urinária.RECLAMAÇÕES CITAM DORES E FRATURASAlém dos casos que chegaram a ser acompanhados judicialmente, também existem relatos de outros visitantes.Em uma plataforma de avaliação de consumidores, foram identificados pelo menos 40 registros publicados nos dois anos anteriores por pessoas que afirmam ter sofrido algum tipo de lesão após andar na Montezum.Os relatos mencionam dores no pescoço, problemas nos joelhos e até fraturas nas costelas.A existência dessas reclamações, porém, não estabelece por si só uma relação causal entre os passeios e todos os problemas relatados. Os casos precisam ser analisados individualmente.O QUE DIZ O HOPI-HARIProcurado pelo Fantástico, o Hopi Hari afirmou que a Montezum possui certificação internacional emitida pelo grupo TÜV Nord e passa por inspeções anuais. O parque também declarou seguir as normas nacionais aplicáveis aos parques de diversões.Segundo a administração, placas e avisos sonoros informam aos visitantes que a atração é considerada radical por causa da intensidade das forças e dos movimentos envolvidos. Os alertas também indicam restrições para pessoas com problemas na coluna, gestantes e visitantes com determinadas condições clínicas.O parque citou ainda um parecer do Ministério Público de São Paulo, emitido em agosto de 2026, que, segundo a empresa, não identificou risco coletivo na montanha-russa. O documento foi produzido após uma mulher ser encaminhada à enfermaria com dores no pescoço em julho.Sobre o caso de Júlia, o Hopi Hari informou que prestou atendimento imediato seguindo os protocolos de segurança. A empresa também afirmou ter acompanhado a internação da jovem, custeado despesas e disponibilizado um seguro à família.Em relação aos casos de Nathalia e Márcio, o parque afirmou que os episódios ocorreram antes de 2019, durante a administração anterior.Sobre as reclamações publicadas em plataformas de consumidores, a empresa classificou os registros como um índice estatístico considerado irrisório diante do número de pessoas que visitam o parque. Segundo a administração, mais de um milhão de visitantes estiveram no local no período mencionado.O Hopi Hari também já havia anunciado, em janeiro, uma reforma na Montezum prevista para o fim de 2026.MINISTÉRIO PÚBLICO INVESTIGA O ACIDENTEO Ministério Público de São Paulo abriu investigação sobre o caso de Júlia e solicitou uma perícia policial na montanha-russa.O objetivo é esclarecer as circunstâncias do acidente e verificar os elementos relacionados ao funcionamento da atração e ao trauma sofrido pela jovem. O procedimento ainda está em andamento.FAMÍLIA ACOMPANHA RECUPERAÇÃOCinco meses depois do acidente, Júlia continua em processo de reabilitação. Ao todo, segundo a família, foram sete cirurgias. A mãe, Danielle Rimolli, e João Pedro se revezam nos cuidados. A rotina inclui fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia."Agora" a jovem conta com fisioterapia três vezes por dia, três vezes por semana, além das demais terapias, segundo a mãe. A família pediu que imagens de Júlia durante o processo de recuperação fossem preservadas.Para João Pedro, o principal objetivo neste momento é que ela consiga recuperar a maior autonomia possível. "Minha única preocupação é ela estar bem. Ela voltar a ser independente, a ser feliz de novo, a sorrir, conseguir conversar, ser independente, ser forte, que nem ela sempre foi", afirmou.
Fonte original: https://dol.com.br/noticias/brasil/963320/jovem-perde-movimentos-em-montanha-russa-caso-e-investigado-pelo-mp




