O advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas ao longo de 2025 e depositou mais de R$ 258 milhões na Foggo, empresa responsável pela plataforma Blaze. Os dados constam de uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, obtida pelo UOL. A Polícia Federal (PF) investiga o advogado por suspeita de lavagem de dinheiro e apura se ele seria sócio oculto da empresa de apostas.Segundo o levantamento, Willer sacou quase R$ 200 milhões durante o período. O volume apostado supera o valor depositado porque os ganhos eram reutilizados em novas apostas, fazendo com que os mesmos recursos circulassem repetidamente. A PF suspeita que as operações possam ter servido para simular apostas, em vez de representar uma atividade de jogo efetiva. A investigação tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).CONTEÚDO RELACIONADOEscândalo Master: o que falta descobrir sobre o caso do bancoLula vai ao TSE na terça (20) com autorização para abrir sigiloTSE suspende propaganda de Flávio sobre “Smart Brasil”Fazenda aponta falhas no controle da BlazeA nota técnica da SPA afirma que a Blaze não analisou as operações do advogado para prevenir possíveis práticas de lavagem de dinheiro. Para a secretaria, os valores movimentados se enquadravam claramente entre aqueles que exigiam avaliação mais rigorosa, sendo "praticamente impossível" que a empresa não percebesse transações na casa dos bilhões de reais.O documento aponta "indícios de culpa ou dolo" da plataforma e levanta a possibilidade de negligência para preservar as receitas obtidas com as apostas. A secretaria, contudo, não conclui que houve lavagem de dinheiro. O relatório identifica padrões que deveriam ter sido investigados, como depósitos e saques fracionados e a possibilidade de utilização de ferramentas automatizadas para realizar apostas.Quer mais notícias nacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.Um dos episódios destacados ocorreu em 30 de outubro de 2025, quando Willer depositou R$ 7 milhões em 14 transferências de R$ 500 mil. No dia seguinte, retirou R$ 6 milhões em apenas 18 minutos. Em 11 de novembro, fez 12 apostas em cinco minutos, totalizando mais de R$ 5 milhões. Ao longo do ano, foram registradas 629 apostas individuais de R$ 500 mil ou mais.A Fazenda questionou se operações dessa dimensão poderiam ser consideradas comuns. Segundo a secretaria, um volume elevado de apostas pode representar um sinal de alerta para lavagem de dinheiro mesmo quando o apostador registra perdas.Advogado era classificado como cliente de risco médioDe acordo com a nota, a Blaze manteve Willer classificado como cliente de risco "médio" durante todo o ano. A secretaria afirma que, pelos próprios critérios da empresa, ele poderia ter sido enquadrado no nível máximo, inclusive por já ter sido preso sob suspeita de corrupção.A plataforma considerava depósitos superiores a R$ 50 mil um fator de risco. Os valores depositados pelo advogado ultrapassaram esse patamar em mais de cinco mil vezes, segundo o documento.Em 2025, a Blaze comunicou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apenas sete operações suspeitas, todas relacionadas a apostas inferiores a R$ 1 mil. Para a Fazenda, as comunicações envolveram valores comparativamente irrisórios, enquanto as movimentações de Willer sequer foram submetidas à análise necessária.A secretaria também questionou informações prestadas pela empresa ao regulador. Em março de 2025, a Blaze afirmou que monitorava as operações por meio de sistemas automatizados. Em dezembro, porém, admitiu não possuir essa ferramenta. O relatório ressalva que a informação incorreta pode não ter sido fornecida intencionalmente.A nota recomenda a abertura de processo contra a empresa, com possibilidade de multa, além da avaliação de uma suspensão temporária das atividades. Segundo a secretaria, a operação da plataforma pode ter permanecido, ao longo de um ano inteiro, vulnerável à prática de crimes financeiros.Defesa nega fracionamento e uso de sistemas automatizadosA defesa de Willer Tomaz afirma que os recursos utilizados nas apostas têm origem lícita, são compatíveis com os rendimentos do advogado e estão declarados à Receita Federal. Os representantes também argumentam que o volume total apostado resulta da reutilização sucessiva dos mesmos valores, não significando a entrada de dinheiro novo a cada operação.Segundo a defesa, o advogado nunca utilizou ferramentas automatizadas nem fracionou transações para contornar mecanismos de controle. Os representantes também questionaram a divulgação de informações protegidas por sigilo, afirmando causar estranheza que um documento técnico federal tenha chegado à imprensa em período eleitoral.Willer declarou que realizava apostas em jogos de cassino ao vivo, inicialmente no bacará, modalidade que permite apostas de diferentes valores em rodadas rápidas. Posteriormente, segundo relato apresentado em uma ação judicial contra a Blaze, passou a jogar blackjack em uma mesa exclusiva criada para ele, chamada “Blaze VIP Blackjack”.Justiça negou pedido para recuperar R$ 133,2 milhõesO advogado afirma ser viciado em jogos de azar. Na sexta-feira (16), a Justiça de São Paulo negou seu pedido para recuperar R$ 133,2 milhões que teria perdido na Blaze.Na ação, Willer se descreveu como o apostador que mais havia perdido dinheiro na plataforma. Ele alegou ter solicitado o bloqueio da própria conta, sem atendimento da empresa. O juiz, no entanto, apontou contradição entre essa alegação e os pedidos que o advogado teria feito à plataforma para utilizar mesas exclusivas com apostas de até R$ 500 mil.Willer também acusou a Blaze de ter realizado pagamentos de R$ 6 milhões por meio de 400 transferências de R$ 15 mil. Segundo ele, a divisão dos valores se assemelharia a uma prática usada para contornar controles contra lavagem de dinheiro.Advogado também apostou na 7K, investigada na Operação Narco BetAlém da Blaze, Willer depositou R$ 1,3 milhão na 7K, marca do grupo Ana Gaming. Na plataforma, ele apostou R$ 4,8 milhões em jogos on-line e sacou R$ 426 mil, conforme os dados obtidos pela reportagem.A empresa foi alvo de bloqueio judicial de R$ 631 milhões no âmbito da Operação Narco Bet, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Deflagrada em outubro de 2025, a operação levou à prisão de 11 pessoas suspeitas de utilizar criptomoedas e plataformas de apostas para lavar recursos do tráfico internacional. Entre os presos estava o influenciador Buzeira, solto em agosto de 2026.O Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) manteve o bloqueio de bens do grupo, controlado pelo empresário Nickolas Ribeiro, ao apontar fortes indícios de lavagem de dinheiro.A defesa de Willer afirma que ele foi apenas cliente da 7K, sem vínculo societário, comercial ou pessoal com a empresa ou seus controladores, e nega que seja alvo da Operação Narco Bet.A Ana Gaming, sediada em Nova Lima (MG), opera as marcas 7K, Cassino e Vera e patrocina o Santos. Autorizado pela Fazenda a operar em fevereiro de 2025, o grupo declarou que não comenta processos sob segredo de Justiça nem operações individuais de clientes. A empresa também afirmou cumprir a legislação, manter políticas de jogo responsável e estar à disposição das autoridades.Investigação também apura relação com Flávio BolsonaroA Polícia Federal investiga se Flávio Bolsonaro atuou ao lado de Willer Tomaz em um suposto esquema de lavagem de dinheiro. O inquérito está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no STF. O senador classificou a investigação como "fake news".Reportagem anterior do UOL revelou que os dois chegaram a compartilhar uma conta no banco Santander, conforme e-mails apreendidos pela PF. Em maio de 2025, uma funcionária de Willer pediu que a conta identificada como "Flávio Bolsonaro" fosse desassociada do "usuário master" ligado ao advogado.
Fonte original: https://dol.com.br/noticias/brasil/966069/investigado-pela-pf-socio-de-flavio-bolsonaro-movimentou-r-5-bilhoes-em-apostas




